A Igreja que virou livraria na Holanda

A livraria Selexyz Dominicanen já foi uma igreja. Hoje é considerada uma das livrarias mais bonitas no mundo e o Entre Mulheres e Letras foi lá conferir.

Selexys Dominicanen - Livraria, Maastricht

Selexys Dominicanen – Livraria, Maastricht

Situada em Maastricht no sul da Holanda, hoje é mais um exemplo da relação dos holandeses com os seus templos religiosos. Quase metade da população holandesa não tem religião. Assim, com o tempo, as igrejas foram-se esvaziando e virando apartamentos, bares, casas de show e também livrarias.

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A mãe no banco dos réus

Acabei de ler um livro holandes chamado “De moeder monologen” de Marleen Janssen, onde 36 mulheres de várias idades falam sobre o relacionamento com suas mães. Tem história de mãe boazinha, mãe submissa, mãe autoritária, mãe alcoólatra, mãe indiferente, mãe mazinha, mãe amiga, mãe cuidadosa e por ai vai. O livro ficou na minha cabeca depois que acabei de ler e quando isso acontece gosto de escrever sobre o assunto. Segundo as histórias, algumas mães realmente deixaram sequelas enquanto outras deixaram um legado (pouquíssimas). Interessante observar que enquanto algumas filhas ficaram com problemas emocionais que se arrastou até a idade adulta, outras fizeram das perdas ganhos, cresceram com as experiências ou até passaram a entender um ou outro comportamento da mãe depois que se tornaram, também, mães. Que grande responsabilidade ser mãe…como tudo que é falado, ou deixado de falar, tudo que é feito ou se deixa de fazer tem uma consequência no futuro daquele que acha que saiu de dentro de uma Mulher Maravilha. Fiquei pensando: até que ponto somos tão culpadas assim? Eu acho que a MAIORIA  das mães erra tentando acertar e os filhos não podem esquecer que, também fomos filhas um dia e, como tal, também temos nossas sequelas ou legados…mãe perfeita não existe e, hoje, eu acho que tínhamos filhos muito cedo. Nos tornávamos mães em uma fase que estávamos tentando conhecer a nós mesmas e de repente tinhamos um serzinho lá dependendo de todo o conhecimento que ainda não tínhamos. Acho que hoje as mulheres que tem filhos com mais de 30, quase 40 estão mais preparadas para criarem seus filhos, massss mesmo assim nunca serão perfeitas como idealizam os filhos. Eu mesma se pudesse voltar no tempo faria muuuitas coisas diferente.

Claro que existem histórias horríveis que chegam pela mídia ao nosso conhecimento mas não estamos falando aqui das histórias mais escabrosas, estamos falando das mais comuns e que mesmo assim tem efeitos colaterais. Fiquei pensando que se tivesse um livro onde as mães  escrevessem sobre seus filhos também leríamos histórias onde a mãe, muito legal, muito carinhosa, muito presente, viu seu filho se transformar em um traste drogado ou coisa pior e se o livro falasse dos pais também teríamos muitas histórias mal resolvidas. O que fica claro é que o ser humano é muuuito complexo e que relacionamento seja lá em que nível for não é fácil. No livro tinha uma história de uma família com, se nao me engano, 7 filhos e é comentado que se todos fossem entrevistados ficaríamos com impressão que cada um foi criado em uma família diferente porque eles tinham os mais diferentes pontos de vista sobre o mesmo acontecimento, ou seja, o que traumatiza um, nao traumatiza o outro…precisaria então a mãe de um manual de como lidar com cada um deles?

O mais importante de tudo isso, na minha opinião, é procurar crescer com as experiências, absorver o que foi feito de bom (algumas pessoas tem a capacidade de esquecer coisas boas e só lembrar coisas ruins), fazer das perdas ganhos, não arrastar correntes por toda a vida dizendo: sou assim porque vivi isso ou aquilo, sou assim porque minha mãe isso, minha mãe aquilo. Se a pessoa for viver de passado, de remoer coisas que não podem mais ser mudadas está fadada a ser infeliz…sempre é tempo de mudar, de exorcizar o que não caiu bem e tentar sair de toda a história mais fortalecido. Sempre lembro da frase que lí em um livro (não lembro qual – rsrs). “NÃO IMPORTA O QUE FIZERAM COM VOCÊ, O QUE IMPORTA É O QUE VOCÊ VAI FAZER COM O QUE FIZERAM COM VÔCE”. E para vocês que ainda não tem filhos saibam que: um dia vocês também estarão no banco dos réus.

Cartas a Théo

O LIVRO:

Quando decidi saber mais sobre a cultura holandesa antes de mudar para a Holanda, comprei esse livrinho pocket que traz a seleção das 200 mais importantes cartas que Van Gogh escreveu ao irmão Theo durante a vida. O livro me parecia perfeito para satisfazer minhas necessidades naquele momento, quase didático, com um glossário de 200 nomes citados por Van Gogh em suas cartas, ilustrações, introdução biográfica, cronologia de vida e um texto escrito de Paul Gauguin descrevendo o episódio onde Van Gogh corta sua própria orelha.

 O fato é que só agora, quatro anos depois, peguei esse livro na estante para ler. Acredito um pouco nessa história de que muitas vezes são os livros escolhem a gente naquele momento em que devem ser lidos. E esse livro veio num bom momento. Acho que conhecendo melhor agora o perfil dos holandeses, pude compreender mais claramente a personalidade de VanGogh, mesmo que tudo tenha se passado no séc. XIX.  Acredito que pouca coisa tenha mudado na essência da cultura holandesa desde essa época e o livro foi pra mim como uma releitura de alguns aspectos que vejo no dia-a-dia da vida na Holanda, com por exemplo a maneira de viver a doença, os conceitos de vida saudável e as relações familiares.

AS CARTAS:

Não se trata de uma leitura leve e descontraída. A relação com o irmão é muito intensa (em média 1 carta por semana), onde temos acesso a sentimentos e pensamentos profundos de Van Gogh sobre sua vida, sua pintura, sua opinião sobre outros pintores, escritores e filósofos da época.  Van Gogh vive muitos momentos de tristeza, opressão, desespero e as alegrias se resumem à descoberta de alguma cor nova, de um cenário novo que o inspira…  Suas dramáticas reflexões sobre o processo tumultuado da criação e sobre as pinturas propriamente ditas fazem crer que Van Gogh era um profundo pensador e crítico de si mesmo, que buscou, praticamente a vida inteira, entender a sofrida vida de um artista e como sobreviver a ela. Passou muita fome e viveu praticamente na miséria, alimentando-se quase que somente da sua obsessão pela pintura, a qual se dedicava 24 horas por dia.

Van Gogh era financeiramente dependente do irmão para comer, se vestir, pintar e fazer planos para o futuro. A meu ver, suas cartas com listas burocráticas de materiais de pintura, pedidos de roupas e equipamentos  são extremamente comoventes, quase desesperadoras. Em muitas delas Van Gogh envia esboços e croquis de quadros que pretende fazer, descrevendo detalhadamente as cores que lhe inspiram para aquele cenário específico. Tive a impressão que muitos desses esboços,  enviados com muita frequência,  tinham por trás um sentimento de “dar satisfação” ao irmão pelo investimento financeiro dele no trabalho de Van Gogh.

A LOUCURA:

Quando a loucura surge em sua vida, percebemos uma certa revolta e ao mesmo tempo uma aceitação tranquila da sua condição de doente. Parece paradoxal e realmente é. Mesmo estando internado em clínicas psiquiátricas a obsessão pela pintura jamais o abandonou. Acredito que Van Gogh era tão consciente de seu estado mental que falava da loucura  e da descoberta de novas cores num mesmo parágrafo, com a maior naturalidade do mundo. A convivência com os outros doentes mentais lhe dava essa base de comparação entre sua própria condição e a dos outros e por isso decidiu, com muito discernimento, permanecer internado.

A carta escrita ao irmão depois do episódio da orelha cortada tem tom de raiva até então não visto nas cartas anteriores. Tudo parece incompreensível para ele, as pessoas não o entendem e seu isolamento é absoluto.

Enfim, muita psicologia e auto-análise descritas em 200 cartas (das 652 no total).  Recomendo fortemente para os interessados em ver a sua obra com olhos mais sensíveis e curiosos.

Ostra feliz não faz pérola

O que chamou minha atencão neste livro foi o texto que lí na contra-capa que dizia o seguinte:

“Ostra feliz não faz pérola”. A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faca sofrer. Sofrendo a ostra diz para si mesmo:

“Preciso envolver essa areia pontuda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas…” Ostras felizes não fazem pérolas… Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. A ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor, Não é preciso que seja uma dor doída…Por vezes a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade. Este livro está cheio de areias pontudas que me machucaram. Para me livrar da dor, escrevi”

Eu não podia ter feito escolha melhor. Neste livro Rubem Alves nos presenteia com textos sobre vida, educacão, beleza, natureza, religião, saúde mental, política, amor, criancas etc. A visão de alguém experiente, amoroso, querido e talentoso. Ninguém é obrigado a concordar com tudo que um autor escreve mas pode se deliciar com textos como este que vou reproduzir abaixo, onde ele fala sobre “a beleza”.

Um dia Rubem estava ouvindo uma sonata para violino e piano e se emocionou. Perguntou a si mesmo: Porque é que você está chorando?. A resposta veio fácil: choro por causa da beleza. Mas o que é a experiencia da beleza? Sem uma resposta pronta lembrou de algo que aprendeu com Platão.

“Platão, quando não conseguia dar respostas racionais, inventava mitos. Ele contou que, antes de nascer, a alma contempla todas as coisas belas do universo. Esta experiência é tão forte que todas as infinitas formas de beleza do universo ficam eternamente gravadas em nós. Ao nascer, esquecemo-nos delas. Mas não as perdemos. A beleza fica em nós adormecida como um feto. Assim, todos nós estamos grávidos de beleza, beleza que quer nascer para o mundo qual uma crianca. Quando a beleza nasce, reencontramo-nos com nós mesmos e experimentamos a alegria. Agora vem a contribuicao de Rubem Alves. Continuando o mito. Há seres privilegiados – eles bem que poderiam ser chamados de anjos – aos quais é dado acesso a esse mundo espiritual de beleza. Eles veem e ouvem aquilo que nós nem vemos nem ouvimos. Aí eles transformam o que viram e ouviram em objetos belos que os homens normais podem ver e ouvir. É assim que nasce a arte. Ao ouvir uma música que me comove por sua beleza, eu me re-encontro com a mesma beleza que estava adormecida dentro de mim”

Eu acho que Rubem é um destes anjos que transforma o que vê em beleza.

A Sociedade da Neve

Os dezesseis sobreviventes da tragédia dos Andes contam toda a história pela primeira vez

A sociedade da neve - livroAinda lembro do livro de capa dura meio esverdeada que recebi do Clube do Livro nos anos 80. Os Sobreviventes dos Andes, de Piers Paul Read, narrava a inacreditável história de um grupo de jovens uruguaios que tiveram que recorrer à antropofagia para sobreviverem a um acidente aéreo na Cordilheira dos Andes. A história me impactou tanto que tive que ver o filme Alive mais de dez anos depois. Isso ficou por muito tempo na minha cabeça.

A verdade é que essa é uma história que chocou e impactou todo o mundo. Alguns, apenas pelo detalhe grotesco do canibalismo, outros, pela capacidade de sobrevivência do ser humano ou pela força de um grupo em uma situação de catástrofe. Enfim, existem diversas histórias dentro nesse incrível acontecimento. Pablo Vierci, que foi colega de escola de vários dos sobreviventes, conseguiu mostrar os mais diversos ângulos; ou pelo menos a versão de cada sobrevivente.

O autor começou o seu relato em 1973 mas, devido à comoção provocada, congelou o seu projeto. Quase quarenta anos depois ele ressurge com o mais completo relato do ocorrido. Mas para entender, precisamos voltar ao ano de 1972.

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Feliz por nada :))

Ja perceberam como tudo fica leve quando fazemos uma faxina na casa ou organizamos os armários, a bolsa ou damos aquele trato no jardim depois que o inverno passa? Nos sentimos renovadas, parece que tudo ficou mais leve e isso apenas pelo fato de colocarmos tudo em seu devido lugar e nos livrarmos do que estava entulhado. Mas existe um lugar que precisamos também, sacodir a poeira, jogar fora o que não serve, colocar tudo no seu devido lugar mas vamos protelando, protelando, juntando mais e mais lixo e quando o lixo ja está transbordando e fedendo…algumas pessoas explodem, outros tomam remédio, outros adoecem, e muitos procuram um terapeuta. Sim, estou falando da nossa cabeca. Este rodeio todo é para falar do livro “Feliz por nada” da escritora Martha Medeiros. Para os mais preconceituosos ja vou falando que não se trata de um livro de auto ajuda, embora eu ache que todos os livros, querendo ou não, desempenham este papel. Este livro está classificado como não ficcao. O que aconteceu quando o peguei para ler no voo entre Brasil e Holanda, uma semana atrás,  foi o seguinte:  De repente a faxina comecou. Coisas que estavam guardadas lá no fundo do armário e que eu nem lembrava mais foram surgindo. Coisas inúteis, velhas, fora de uso, que não serviam mais e estavam alí apenas entulhando e que eu resolvi me livrar naquele momento. Tinha “lixo” pequenininho que cheirava muito, outros “lixos” maiores mas que dava para ser reciclado e também coisas novinhas que precisavam ser guardadas com carinho. Durante o tempo que fiquei lendo quase podia sentir a poeira saindo por todo os lados e o refrescante cheirinho de limpeza no ar. Livro bom é assim, não complica, passa a mensagem, te acrescenta e ajuda você a fazer a faxina sem precisar pagar uma profissional…simples assim. Adorei e recomendo.

O coração é um caçador solitário (Carson McCullers)

Numa cidadezinha do Sul dos Estados Unidos for volta de 1930, eventos da vida de cinco indivíduos são relatados. Em cada capítulo, a autora volta a sua atenção para um desses indivíduos.  Personagens secundários são introduzidos ao longo da narração. Obviamente por se passar numa cidade pequena, as histórias e os personagens se entralaçam, mas o leitor nunca perde de vista à que indivíduo o capítulo é destinado.

Para entender a história, vale apena fazer uma diferenciação quanto à nomenclatura. Ao meu ver, personagens são todos os figurantes da história. Suas vidas de misturaram, seus destinos se juntam dando a impressão ao leitor de que eles fazer parte de um grupo. Os cinco indivíduos são entidades separadas. Sua vidas, sentimentos, emoções são como uma gota de óleo em uma bacia de água: elas não se misturam.

Para mim essa é a chave para entender a história. Pelo fato de os indivíduos terem uma grande dificuldade de se integrar ao grupo, eles sofrem de uma solidão aguda. A maior barreira que eles não conseguem transpor se dá pela comunicação. Um mudo, um negro erudito, uma menina, um comunista e um dono de restaurante vivendo numa época de extrema pobreza e segregação racial. É fácil conseguir identificar a razão de eles se sentirem tão sós, tão isolados em seus próprios mundos.

Fico pensando se solidão é uma questão de escolha. Esse livro deixa bem claro que não. Uma combinação de fatores externos pode levar a gente a se sentir e a ser extremamente sós. Gostei muito do livro, achei-o muito tocante. Também fiquei surpresa em descobrir que uma narração tão sensível foi criada por uma escritora de apenas 23 anos the idade.

Recomendo esse livro por sua história e suas descrições detalhadas. Ao ler a descrição de como o dia estava quente, conseguia sentir calor mesmo nesta fria primavera holandesa!