Através do tempo

Quando se tem em casa livros antigos, fica mais fácil viajar na nossa história, excitar nossa imaginação sobre os fatos e sobre um mundo que não vimos.

Nunca escreví um livro, mas penso que quando alguém resolve fazê-lo, é porque deseja que suas impressões fiquem marcadas e registradas, que sejam úteis de alguma maneira para alguém.

Mas será que elas imaginam que seus livros poderão ser lidos dois, três séculos depois?

Às vezes, ao folhear alguns livros antigos aqui em casa, tenho a impressão que os autores nunca poderiam imaginar que alguém iria ter acesso a eles séculos depois. Me parecem tão despretenciosos, simplesmente livros, escritos por pessoas que pensaram muito mais nas suas utilidades durante aquele período, do que desejaram que eles ficassem para as próximas gerações.

Um desses livros despretenciosos que tenho aqui, é de um manual de geografia, escrito em holandês (Kort Begryp der Geographye, em português: Conhecimento curto, compacto, de Geografia), provavelmente para crianças em idade escolar, todo feito com perguntas e respostas sobre os países e continentes, datado de 1768. Percebe-se que o único objetivo do autor foi ser bem didático, pois sua linguagem é simples, própria para crianças.

p1050872Quando ele fala da América Latina, cita a Amazônia como um país próprio.  Ele fala que é um dos lugares mais quentes do mundo, que as pessoas são como as que existem no Brasil (segundo o livro era um outro país), cruéis, que comem pessoas, pintam os corpos com diferentes cores e fazem uma espécie de marcas no rosto usando pedras. Relata o estilo de vida dos “amazonenses” como pessoas vingativas, e que não se sabe ao certo se possuem algum conhecimento sobre Deus ou noções sobre religião.

Sobre o Brasil, o livro fala que é um lugar muito grande, governado por um príncipe, e não um rei, descendente de Portugal. Relata que possui muitas árvores com madeira vermelha (acho que é o nosso pau-brasil), muita açúcar, papagaios e um tipo de pássaro chamado colibri. Diz que o povo que lá vive, é português, mas que existem grupos que não são governados pelo príncipe (seriam os índios?). Descreve o Brasil como sendo um lugar com 15 divisões, sendo 8 construídas com o dinheiro do Rei de Portugal, e as outras foram construídas por homens especiais que receberam essas terras pelo Rei. Por fim, diz que a capital do Brasil é a Baía de Todos os Santos, mas que as pessoas chamam de São Salvador em função de uma igreja com o mesmo nome existente no local.

Claro que o livro tem outras coisas super interessantes não só sobre a América Latina, mas sobre todo o planeta, como por exemplo, o fato de que alguns cientistas modernos estão alegando que a Terra é que gira em torno do sol, mas que na verdade a Bíblia afirma que é o sol que gira em torno da Terra. Dá pra perceber que, sobre o tema, o autor não discute muito, mostrando sua posição mais favorável à teoria da Igreja, talvez porque na contra-capa, há um carimbo da Igreja dizendo Met Approbatie, o que significa: aprovado.

Enfim, no caso desse livro, acho muito interessante ver como as crianças holandesas do séc. XVIII estudavam nossa geografia e viam nosso mundo, sob os olhos de um autor que talvez nunca tenha tido a pretensão de fazer história, mas apenas de contribuir para o ensino na época.

Anúncios

  1. Simone

    Que máximo esse livro, preciosidade!
    Ah, já tinha ouvido falar que os amazonenses comem criancinhas,rs. Um estrangeiro leu em um livro e chegou lá no Brasil perguntando se era só na Amazonia ou se esse ato, era também praticado em outras regioes do Brasil.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s