Fragmentos de um passado amoroso

“O sujeito apaixonado é atravessado pela idéia de que está ou de que vai ficar louco”

Roland Barthes

Início de novo ano é hora de renovar desejos. Por isso lembrei de um desejo literário meu.  É que existem livros que, como amores, simplesmente veem ( de acordo com a nova rfragmentos-de-um-discursoeforma ortográfica – argh!)  e,  por mais que nos esforcemos em mantê-los ao nosso lado, eles simplesmente se vão.  Fragmentos de um Discurso Amoroso (Roland Barthes), para mim, é um desses casos.

A primeira vez que ele cruzou a minha vida foi um presente de uma pessoa pela qual estava apaixonada. Foi uma espécie de simbiose. A cada linha, conseguia identificar cada sensação que sentia e ao mesmo tempo reconhecia o meu implacável estado de paixão. O livro conseguia descrever exatamente a caos romântico em que me encontrava. Pouco importava a ordem da leitura. As minhas dores, angústias exageros eram expostas de forma desordenada,  como alguns dos fragmentos abaixo:

ABRAÇO – O gesto do abraço amoroso parece realizar, por um instante para o sujeito, o sonho de união total com o ser amado – “Na calma amorosa dos seus braços”

ADORÁVEL – Não conseguindo nomear a especialidade de seu desejo pelo ser amado, o sujeito amoroso acaba chegando a esta palavra meio boba : Adorável !

DECLARAÇÃO – Propensão do sujeito amoroso de conversar abundantemente, com uma emoção contida, com o ser amado, sobre seu amor, sobre ele, sobre si mesmo, sobre eles : a declaração não se reporta à confissão de amor, mas à forma, infinatamente comentada, da relação amorosa – chamamos de simplesmente : A conversa

ENCONTRO – A figura se refere à época feliz imediatamente subsequente à primeira sedução, antes que surjam as dificuldade da relação amorosa.

ESPERA – Tumulto de angústia suscitado pela espera do ser amado, ao sabor dos mais íntimos atrasos. (encontros, telefonemas, cartas, retornos.)

FESTA – O sujeito vive todos os encontros com o ser amado como uma festa, chamamos de Dias Eleitos.

SEDUÇÃO – Episódio inicial (mas que pode ser reconstruído a posteriori) no decorrer do qual o sujeito amoroso é “seduzido” (capturado e encantado) pela imagem do objeto amado (nome científico : enamoramento)

Foi com esse livro que aprendi que sempre se deve responder quando se ouve “Eu te amo”. Por mais que seja óbvio, precisamos urgentemente  corresponder à irracionalidade do amor. Tudo que queremos  ouvir é “Eu te amo também”.

O livro e o amor permaneceram comigo durante algum tempo. O livro foi emprestado e nunca voltou e o amor completou o seu ciclo e terminou. Comprei de novo o livro e outro amor chegou. Na mudança, o livro se  perdeu, mas o amor ainda está por aqui e parece que vai ficar por um bom tempo.

Aviso ao leitores: não é leitura fácil, mas essencial.

Para ilustrar, o trailer de Romance, novo filme de Guel Arraes .

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