Brasil, Brasil. BBC pra brasileiro ver.

Música, história, Brasil e BBC. Essa mistura deu mais do que samba; deu rock, axé, bossa, forró, maracatu, mangue beat e, junto com a fusão de ritmos, um voo rasante na história e identidade brasileiras.

Assisti há algumas semanas o documentário Brasil, Brasil (2007) da BBC4. O DVD é dividido em 3 episódios: Samba to Bossa, Tropicalia Revolution and a Tale of Four cities. Pensei que fosse demorar dias para assistir. sabe aquele DVD que fica dias perto da Tv e que você vai assistindo em partes? Pois sim, fiz um café, sentei no sofá e apertei o play. Tinha a impressão que assistiria algo “para inglês ver”. Sendo da BBC, esperava algo bem fundamentado, mas tinha a mais absoluta certeza de que não me enxergaria nesse quadro.

Primeira cena: por do sol, Pão de Açúcar, praia e Jorge Benjor, cantando Moro num País Tropical. Penso: ” – Pronto! Lá vem” Mas aí, Joyce fala na estreita relação entre a música e a história do país e de repente sou transportada para Salvador, pedra fundamental do samba e do Brasil. Aí, já me vejo de sorriso aberto, imitando o gesto tão genuíno de Riachão, com o seu samba de roda. O laço me pegou, me apertou e não consegui nem levar a xícara vazia à cozinha.

Do Samba à Bossa

Depois de me encantar com samba de chula do Recôncavo, viajei pro Rio com a Tia Ciata e vivi a discriminação do samba, ritmo que vinha das favelas. Sorri com o choro de Pinxinguinha, vi Getúlio usar o samba como mote facista de unificação nacional e embraçar o sucesso da polêmica Carmen Miranda. Enfim vi nascer a sofisticada bossa, de braços dados com o devaneio de Juscelino: Brasília.  O Nordeste não ficou de lado;  a história de Luiz Gonzaga, voz primeira do forró e da saga nordestina também foi lembrada.

A tarde se esvaía e o monte de coisas que tinha a fazer pairavam na incapacidade de dar uma pausa no filme. Não é todo dia que nomes como João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Paulinho da Viola desfilam suas vozes, obras e vivências, de maneira tão entrelaçada com os acontecimentos marcantes da história do país. Uma aquarela musical com toques de contexto político.

Através de entrevistas com artistas como Joyce, Caetano, Carlos Lyra, Roberto Menescal dentre outros, tudo flui de maneira leve, sem tom professoral.

Assista Samba to Bossa ( em inglês – sem legendas)

1) Parte 1

2) Parte 2

3)  Parte 3

4) Parte 4

5) Parte 5

6) Parte 6

Tropicália

A passagem da sofisticada leveza da Bossa à visceral inocência do Tropicalismo é mostrada de forma consistente. Também trouxe algumas surpresas pra mim. Desconhecia a história da perseguição sofrida por Milton Nascimento, impedido de ver o filho por anos. Esses eram os  turbu/truculentos tempos da ditadura, quando floresceram nomes essenciais para a formação do que hoje conhecemos como Música Popular Brasileira.

Claro que sempre sentimos falta de alguém. Nesse tipo de projeto, injustiças são inevitáveis. Senti falta dos Novos Baianos, que seguiram a trilha de Gil e Caetano e chegaram nos anos 70, Gal , Bethãnia, Jorge Mautner e tantos outros. O ponto de vista também é outro. A história é contada sob um ângulo diferente, um olhar externo, fora do contexto cultural brasileiro. Na narrativa, ainda há aquele o tom distante, como se falasse de uma terra exótica e distante ( o que é uma realidade para eles). Aliás, esse é o único motivo que vejo para a inclusão de Pelé como compositor. O que salva é a citação de Roberto Menescal, que o exalta como jogador de futebol, mas põe em real perspectiva suas habilidades como músico.

O capítulo da Tropicália ainda vai até a Bahia e mostra o movimento afro, uma outra faceta de resistência à ditadura. Passeia pela influência do reagge e corrobora a quase onipresença de Gilberto Gil na história sociomusical do Brasil. O bloco termina com o Rock in Rio, nos anos 80. Aí, o meu coração deu aquela acelarada; essa foi a minha maior experiência musical e a mais marcante da minha adolescência.

Assista Tropicália Revolution (em inglês – sem legendas)

1) Parte 1

2) Parte 2

3) Parte 3

4) Parte 4

5) Parte 5

6) Parte 6

7) Parte 7


A Tale of Four Cities

O terceiro e último episódio conta a história de quatro cidades brasileiras e como a música expressa e interage com o seu contexto sociocultural:

– O inesquecível talento de Chico Science, que transformou o cenário musical, criando um fusão de rtimos nordestinos, com o hip-hop e rock. Também mostrou a realidade do mangue de Recife e trouxe à tona os problemas sociais nordestinos.

– O contraste entre o hip-hop da periferia Paulista e  a descolada música eletrônica da classe média alta.

– No Rio, revela o movimento funk do Afro Reagge que comprova que a música pode transformar realidades. Além de mostrar o articulado protesto do rapper MV Bill, que escancarou para todos o cotidiano da Cidade de Deus.

-Em Salvador, o movimento da resistência negra se contrapõe ao pop axé, mas ao mesmo tempo, juntos, constroem a maior festa popular do mundo.

Assista A Tale of four cities (em inglês – sem legendas)

1) Parte 1

2) Parte 2

3) Parte 3

4)  Parte 4

5) Parte 5

6) Parte 6

Imagens: BBC Gallery, Gil & Caetano ( http://www.world-music.gr/).

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  1. Priscilla Camargo

    A BBC anda se superando mesmo, ao contrário de você eu já esperava o melhor documentário em inglês sobre música brasileira que já vi; super contextualizado na cultura regional. Nessas últimas décadas eles andam se masterizando em documentários modernos e engajados.

    Logicamente senti falta de alguns nomes, mas de uma forma geral dá para saber a linha tracada e as várias ramificações da forma de expressão artística preferida dos brasileiros.

    Meus amigos gringos ao término do documentário quase acabaram com a minha internet baixando todo o nosso diretório de músicas brasileiras. Ficaram empolgadíssimos.

    Esse para mim foi o ponto mais positivo do documentário fazer uma dilvulgação da “Nossa” música de uma forma honesta e atraente!!!

    Parabéns pelo post maravilhosamente escrito.

  2. vaneden

    Belo post, Clarissa!
    Afinal a musica brasileira tem que ter o seu lugar no cenario internacional.
    Bjs

  3. Juliette

    Maravilhoso post Clarissa!!!!. Ja comecei a ver os videos que voce postou e apesar do meu ingles podrinho nao tem como nao se emocionar e se orgulhar.

  4. Everton

    Parabens pelo post Clarice, uma pena que o canal no youtube foi expirado, vc poderia upar esses videos pra algum servidor de compartilhamento como 4shared, ficarei imensamente grato, nao tem pressa, fico no aguardo! forte abraco! Everton

  5. Clarissa Mattos

    Oi Everton, infelizmente esses videos não são meus. Estavam disponíveis no Youtube. Substitui os links pelo que pude encontrar, mas não consegui encontrar todos. Espero que você consiga encontrar na web de uma outra forma. Agradeço a sua visita e comentário. Um abraço, Clarissa

  6. Gustavo Henrique

    Havia encontrado os linques dos vídeos, tem coisa de uns oito meses, de todas as três partes do documentário, ao todo perto de 1,75GB. Com muito boa resolução de imagem e excelente qualidade de som, sem trocadilho. Vou ver se futuco as pastas deste pecê atrás dos endereços. Volto aqui se achar.

    Abraço de duas larguras feito peça de bramante!

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