A Sociedade da Neve

Os dezesseis sobreviventes da tragédia dos Andes contam toda a história pela primeira vez

A sociedade da neve - livroAinda lembro do livro de capa dura meio esverdeada que recebi do Clube do Livro nos anos 80. Os Sobreviventes dos Andes, de Piers Paul Read, narrava a inacreditável história de um grupo de jovens uruguaios que tiveram que recorrer à antropofagia para sobreviverem a um acidente aéreo na Cordilheira dos Andes. A história me impactou tanto que tive que ver o filme Alive mais de dez anos depois. Isso ficou por muito tempo na minha cabeça.

A verdade é que essa é uma história que chocou e impactou todo o mundo. Alguns, apenas pelo detalhe grotesco do canibalismo, outros, pela capacidade de sobrevivência do ser humano ou pela força de um grupo em uma situação de catástrofe. Enfim, existem diversas histórias dentro nesse incrível acontecimento. Pablo Vierci, que foi colega de escola de vários dos sobreviventes, conseguiu mostrar os mais diversos ângulos; ou pelo menos a versão de cada sobrevivente.

O autor começou o seu relato em 1973 mas, devido à comoção provocada, congelou o seu projeto. Quase quarenta anos depois ele ressurge com o mais completo relato do ocorrido. Mas para entender, precisamos voltar ao ano de 1972.

Sobreviventes

Um avião fretado da Força Aérea do Uruguai rumava ao Chile com quarenta e cinco pessoas a bordo, em sua maioria jogadores de um time amador de rúgbi. Ao tentar atravessar a Cordilheira, o avião se chocou contra uma montanha e, do grupo, somente vinte e nove sobreviveram ao impacto e apenas dezesseis foram resgatados com vida.

A Sociedade da Neve

O grupo permaneceu intermináveis 72 dias nas montanhas, abrigados nos restos da fuselagem do avião. Enfrentaram temperaturas extremas de até trinta graus negativos, um avalanche que os deixou três dias soterrados, fome e todo o tipo de agruras que tornavam a sobrevivência a cada minuto menos provável. Famintos, eles tiveram de recorrer ao extremo: se alimentar dos corpos dos amigos. Abandonados -os resgates oficiais haviam sido suspensos dez dias após o acidente -tiveram que encontrar uma saída por si mesmos. E assim, cruzaram um intransponível paredão de gelo, sem saber o que encontrariam além. Ao pé da montanha, do outro lado, um tropeiro foi o elo entro o mundo gelado dos mortos e a sociedade dos vivos.

Detalhes

Essa é uma história tantas vezes contada e recontada que olhei para o livro com suspeita. Mas o que encontrei foi um relato consistente, cuidadoso e que teve extremo respeito a cada opinião e ao papel que cada personagem desempenhou. O autor não só entrevistou cada um dos sobreviventes, como voltou ao local com alguns deles.  Depois de tantos anos, pela primeira vez todas as pessoas envolvidas encontraram a paz para tocar no assunto de forma mais distanciada e nos contam não só como foi estar lá, mas também o impacto em suas vidas. Alguns se fecharam totalmente por mais de 30 anos, outros começaram a ministrar palestras sobre a tragédia. Cada um encontrou a sua maneira de lidar com o seu passado.

A Sociedade da Neve

Se pensava que sabia muito sobre o acidente nos Andes, me dei conta de que nada sabia. O livro conta os muitos detalhes dolorosos e inimagináveis para a nossa sociedade dita civilizada, mas o mais importante é entender os detalhes internos de cada um dos envolvidos, como cada um se sentiu e conseguiu encontrar forças para prosseguir e viver mais um dia, que lições tiraram desse trágico episódio. A cada página, o fantasma do canibalismo perde importância e o que ganha é a força do grupo e a maneira como a sociedade da neve se organizou para sobreviver.

Versão definitiva

Temas como amizade, respeito mútuo, dedicação ao próximo, disciplina, perseverança e valor a vida são abordados a todo momento das mais variadas formas. Os depoimentos são eficientemente intercalados com capítulos descritivos e quando a história parece começar a ficar repetitiva, logo, logo um outro detalhe ou uma nova perspectiva veem à tona. Ainda conta com fotos dos arquivos pessoais. Considero essa a versão definitiva. Após ler o livro, tive uma sensação de saciedade. Também encontrei paz. Não há nada mais que precise saber sobre o episódio. Só o que admirar e aprender.

Hoje os sobreviventes manteem a Fundación Viven que apoia a doação de órgãos.


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  1. jcfernandes

    Este é um daqueles livros que não só nos emociona e sacode como fica na nossa mente por vários dias.

    Ju

  2. Fernanda

    Fico feliz de ter pego esse livro durante o encontro porque assisti há poucos meses atrás o documentário do History Channel sobre o assunto. É um documentário feito em 2010 com os sobreviventes, familiares e especialistas, dividido em 6 capítulos. Fiquei muito absorvida e envolvida nessa história quase fantástica e surreal de sobrevivência e mal vejo a hora de começar a ler algo sobre isso.
    Beijos,
    Fernanda

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