Categoria: Biografia

Cartas a Théo

O LIVRO:

Quando decidi saber mais sobre a cultura holandesa antes de mudar para a Holanda, comprei esse livrinho pocket que traz a seleção das 200 mais importantes cartas que Van Gogh escreveu ao irmão Theo durante a vida. O livro me parecia perfeito para satisfazer minhas necessidades naquele momento, quase didático, com um glossário de 200 nomes citados por Van Gogh em suas cartas, ilustrações, introdução biográfica, cronologia de vida e um texto escrito de Paul Gauguin descrevendo o episódio onde Van Gogh corta sua própria orelha.

 O fato é que só agora, quatro anos depois, peguei esse livro na estante para ler. Acredito um pouco nessa história de que muitas vezes são os livros escolhem a gente naquele momento em que devem ser lidos. E esse livro veio num bom momento. Acho que conhecendo melhor agora o perfil dos holandeses, pude compreender mais claramente a personalidade de VanGogh, mesmo que tudo tenha se passado no séc. XIX.  Acredito que pouca coisa tenha mudado na essência da cultura holandesa desde essa época e o livro foi pra mim como uma releitura de alguns aspectos que vejo no dia-a-dia da vida na Holanda, com por exemplo a maneira de viver a doença, os conceitos de vida saudável e as relações familiares.

AS CARTAS:

Não se trata de uma leitura leve e descontraída. A relação com o irmão é muito intensa (em média 1 carta por semana), onde temos acesso a sentimentos e pensamentos profundos de Van Gogh sobre sua vida, sua pintura, sua opinião sobre outros pintores, escritores e filósofos da época.  Van Gogh vive muitos momentos de tristeza, opressão, desespero e as alegrias se resumem à descoberta de alguma cor nova, de um cenário novo que o inspira…  Suas dramáticas reflexões sobre o processo tumultuado da criação e sobre as pinturas propriamente ditas fazem crer que Van Gogh era um profundo pensador e crítico de si mesmo, que buscou, praticamente a vida inteira, entender a sofrida vida de um artista e como sobreviver a ela. Passou muita fome e viveu praticamente na miséria, alimentando-se quase que somente da sua obsessão pela pintura, a qual se dedicava 24 horas por dia.

Van Gogh era financeiramente dependente do irmão para comer, se vestir, pintar e fazer planos para o futuro. A meu ver, suas cartas com listas burocráticas de materiais de pintura, pedidos de roupas e equipamentos  são extremamente comoventes, quase desesperadoras. Em muitas delas Van Gogh envia esboços e croquis de quadros que pretende fazer, descrevendo detalhadamente as cores que lhe inspiram para aquele cenário específico. Tive a impressão que muitos desses esboços,  enviados com muita frequência,  tinham por trás um sentimento de “dar satisfação” ao irmão pelo investimento financeiro dele no trabalho de Van Gogh.

A LOUCURA:

Quando a loucura surge em sua vida, percebemos uma certa revolta e ao mesmo tempo uma aceitação tranquila da sua condição de doente. Parece paradoxal e realmente é. Mesmo estando internado em clínicas psiquiátricas a obsessão pela pintura jamais o abandonou. Acredito que Van Gogh era tão consciente de seu estado mental que falava da loucura  e da descoberta de novas cores num mesmo parágrafo, com a maior naturalidade do mundo. A convivência com os outros doentes mentais lhe dava essa base de comparação entre sua própria condição e a dos outros e por isso decidiu, com muito discernimento, permanecer internado.

A carta escrita ao irmão depois do episódio da orelha cortada tem tom de raiva até então não visto nas cartas anteriores. Tudo parece incompreensível para ele, as pessoas não o entendem e seu isolamento é absoluto.

Enfim, muita psicologia e auto-análise descritas em 200 cartas (das 652 no total).  Recomendo fortemente para os interessados em ver a sua obra com olhos mais sensíveis e curiosos.

As histórias de Rosa Montero

Rosa Montero

Foi deliciosa a estreia da literatura de Rosa Montero na minha vida através de História de Mulheres.

O livro é fruto da série de artigos publicados pela autora em El País Semanal, em versão ampliada, sobre a vida de 15 mulheres que a tocaram de algum modo, fazendo-a “refletir, viver, sentir”.

Rosa Montero fez renascer minha paixão por biografias, há tempos adormecida, desde quando li a biografia de Camille Claudel, aos 16 anos.

A delícia de descobrir a vida real, a vida de cada dia, de homens e mulheres de carne e osso, com qualidades e defeitos, e de encontrar numa linha, num parágrafo ou num capítulo um pouco (ou muito) de nós mesmos.

O livro me fez perceber que, de fato, todos escrevemos nossa história, a cada dia, a cada escolha, a cada desafio que enfrentamos e a cada solução que encontramos. E são essas atitudes que nos tornam únicos.

As mulheres escolhidas por Rosa Montero são mulheres únicas e por isso especiais. Recomendo à título de identificação, análise e reflexão, principalmente acerca da postura feminina na sociedade e pela maneira fluente, clara e atraente da escritora/tradutora em expressar suas ideias e nos transportar para outras vidas de forma tão contagiante.

Espero em breve ler a biografia completa de algumas das mulheres do livro.