Categoria: Romance

Trem noturno para Lisboa

trem-noturno-para-lisboaEstranho e belo, esse não é um livro que agrade a todos. A odisseia de Mundus reserva momentos de extrema introspecção.  Essa é a história de um professor de línguas clássicas que de repente abandona a sala de aula e o seu mundo certinho e monótono, embarcando num trem noturno para a desconhecida Lisboa.

Depois de um encontro com uma suposta suicida numa ponte na pacata cidade de Berna na Suíça, ele cai de amores, não pela mulher, mas pela palavra “Português”; pela pronúncia, melodia, prosódia. Assim, decide aprofundar-se mais e numa livraria, se apaixona ainda mais pela língua quando descobre um  livro do médico português, Amadeu de Prado.

Estranhezas

À medida que lê os dilemas e reflexões filosóficas do autor português, Mundus questiona a si mesmo e nos põe também em xeque.  Aliás, essa é uma das estranhezas do livro,   Continuar lendo

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Marçal Aquino

Há alguns meses recebi a dica de uma amiga para que o escritor Marçal Aquino fosse introduzido no clube. Dentre os vários livros que trouxe do Brasil, estão o maravilhoso romance de Mario Vargas Llosa e esse, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, que apresento agora com prazer ao nosso espaço.

Um jovem fotógrafo, em busca de novas inspirações, se envolve numa provocante trama, nos confins do Pará, onde a guerra entre garimpeiros e mineradora está prestes a explodir. Sob esse violento cenário social e político, emerge das profundezas menos delicadas, uma relação amorosa que, entre a loucura e o erotismo, transforma a vida do personagem num mar  tempestuoso de incertezas.

Trama instigante e bem escrita que devorei em dois dias.A linguagem é moderna, informal e criativa.

Recomendado  com fervor!

 

 

Se eu fechar os olhos agora

Não vou contar a história do livro. Isso, o próprio autor pode fazer no video abaixo:
Edney Silvestre, jornalista bem-sucedido e conhecido do público brasileiro, lançou o seu primeiro romance no ano passado. Esse romance passou 20 anos rondando a sua cabeça. Ele não conseguia encontrar a justa forma ou voz para contar a história. Até que a seguinte frase surgiu “Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos”. A partir daí, o romance deslanchou.

Médico de Homens e de Almas

Uma pesquisa gigantesca de 46 anos sobre a história e vida de um médico que viveu na época de Jesus Cristo. Parece altamente tentador e instigante ler o fruto desse trabalho feito pela escritora inglesa Taylor Caldwell, traduzido por Aydano Arruda e publicado pela Editora Record em 2006.

 

Pra quem gosta de história, com eu, uma chance para devorar as 669 páginas desse romance e decifrar as experiências e fatos vividos por Lucas, antes Lucano, o apóstolo de Cristo que nunca o conheceu, que não era judeu, mas que se transformou num grande defensor dos ensinamentos cristãos somente com base em documentos, pesquisas e testemunhos que obteve durante a sua vida.

A autora divide o livro em três partes: a infância junto à família, a juventude – quando Lucas vai estudar medicina -, e a fase adulta, quando sai pelo mundo para trabalhar como médico e lentamente vai se convertendo à fé cristã, até assumi-la por completo em sua vida.

Na infância, temos uma visão bem detalhada da vida do personagem, mais precisamente dos que lhe rodeavam, como seus pais e irmãos. Considero essa parte do livro demasiado grande. Muitos detalhes narrados são importantes para entender sentimentos e relações vivenciadas por Lucas quando adulto, mas muitas poderiam ser descartadas, levando em consideração principalmente o resto da vida dele, que é muito mais intensa e interessante para o leitor.

Na segunda parte do livro, são narradas diferentes experiências vividas pelo personagem durante os estudos na escola de medicina. Amizades que construiu, reflexões e introspecções, sentimentos e angústias. A autora também se dedica muito à descrição de lugares, paisagens e vestimentas, que a meu ver, ultrapassa um pouco o interesse normal do leitor. Uma das passagens mais interessantes nessa parte do livro, ocorre quando Lucas vai à Roma e conhece César. A leitura aqui flui mais fácil e se torna menos descritiva e mais ativa.

Lucas vivencia nesse período inúmeras experiências que a autora, talvez pela enorme dedicação em elaborar o livro, não conseguiu resumir ou selecionar as mais relevantes. Em muitos momentos há uma trave que impede a fluência da história e dos fatos, e a leitura empaca numa descrição interminavel das paisagens e objetos. Essa parte do livro contém também alguns momentos exageradamente fortes, como por exemplo a descrição minuciosa de um aborto de uma mulher parente de Lucas que sofria de epilepsia. A cena foi narrada de modo tão real, que eu não conseguí dormir depois de ler.

Na terceira e últimia parte do livro, Lucas sai em peregrinação, buscando um verdadeiro sentido pra vida e pra si mesmo. Nessa parte, o livro é mais brando, e Lucas vivencia experiências mais gratificantes como médico, faz verdadeiros amigos e reencontra familiares que não via há anos. Aos poucos, o personagem vai se deparando com o dom da mediunidade e cura muitos de seus pacientes sem se dar conta disso, mas, infelizmente, sua conversão ao cristianismo acontece no livro quase que despercebida. A autora deixou a desejar, a meu ver, no momento mais crucial da sua vida, quando ele assume definitivamente os ensinamentos de Jesus como verdadeiros e passa a dedicar-se ao seu evangelho. Isso ocorre somente nas últimas páginas do livro. Minha curiosidade de leitora desejava saber mais um pouco depois da sua conversão e menos detalhes da sua infância e juventude.

Gostei de ter tido a chance de saber da história de Lucas e da civilização na época, mesmo não tendo gostado completamente da maneira como ela foi escrita. Apesar disso, o livro tem um ponto positivo: são feitas muitas notas de rodapé explicando nomes de deuses e personagens da mitologia grega citados na narrativa. 

Quero destacar também, que a autora procura situar os fatos e os personagens sempre dentro do contexto histórico e social da época, o que certamente é importante e interessante, mas acho que isso deve ser feito com cuidado e comedidamente. Por instantes, o leitor se perde na história e fica apenas concentrado nas relações sociais entre gregos, romanos, gentios, judeus, etc.

Por fim, a linguagem e gramática usadas no livro tem um tom muito religioso, que cansam e não permitem uma literatura romanceada e fluente. Usa-se muito os pronomes tu, conosco, convosco, por exemplo. Há uma preferência também pelo tempo do pretérito mais-que-perfeito, como dissera, houvera, falara e pelo uso formal das regras de ênclise, próclise e mesóclise.

Férias. Entre o sol e livros

Quando volto ao Brasil, além do sol, estar com a família e rever amigos, busco livros. Passear entre as estantes e mesas cheias de livros escritos em Português me dá tanto ou mais prazer quanto o toque do raios de sol na minha pele ou a sensação água morna do mar da Bahia. Dessa vez saciei minha sede quase por completo. Não fiz conta de peso, nem de bolso e garimpei coisas interessantes. Vejam a listinha:

  • Perto do Coração Selvagem, Clarice Lipector: Romance de estréia da autora e  um marco na literatura brasileira. Tem que estar na prateleira, não é mesmo?
  • A Bela e a Fera, Clarice Lispector: 8 contos de Clarice, escritos entre 1940 e 1941
  • Clarice na cabeceira, Clarice Lispector: seleção de textos para ficar sempre perto para inspiração.
  • A Hora da estrela, Clarice Lispector: O último romance da autora que  tem um filme homônino.
  • O Seminarista, Rubem Fonseca: O autor dispensa comentários e nesse romance, ele vem no melhor do seu estilo. Saiba mais sobre o livro no video abaixo.

O Caçador de Pipas

Equanto me dedicava ao holandês, ele ficou paradinho, encostado na prateleira por mais de um ano, junto ao livros em português que trouxe do Brasil. Quando corri os meus dedos na estante em busca de algo para ler, tinha sede de algo em minha língua, algo que à primeira vista tivesse um significado facilmente reconhecido, assim como um sorriso de mãe, da língua-mãe. E foi assim mesmo que aconteceu. Peguei “O Caçador de Pipas” de Khaled Hosseini e as palavras, como melodias doces, me atraíram de primeira.

A bela e conturbada saga de Amir além de me comover, me pegou de jeito. Amir, narrador da história, é um menino afegão que, apesar de uma infância afortunada, era atormentado pela luta pelo amor do pai e pela culpa por ter traído Hassan, seu melhor amigo. Hassan, menino pobre, empregado de Amir e de etnia discriminada no Afeganistão, é o símbolo de honra, honestidade, coragem e de verdadeira amizade. Os seus caminhos se cruzam e se afastam e nos revelam, entre as eventuais lágrimas, sentimentos como amor, amizade, honra, traição, culpa, perdão e redenção.

O livro também nos dá uma oportunidade de ver o Afegansitão por uma outra lente. Depois de ver tantas imagens de cidades destruídas, foi difícil e ao mesmo tempo reconfortante imaginar a beleza da paisagem e a riqueza dos aromas e sabores descritos no livro.

Mergulhando na sua cultura e conflituosa história, encontramos a beleza do passado e ao mesmo tempo, a crueldade da intolerância e das guerras. Revela-se um panorama histórico e político do país; desde os anos 70 até a queda das Torre Gêmeas e a expulsão dos Talibãs pelas Forças Aliadas com o apoio da Aliança do Norte.

Essa entrará na minha galeria de histórias inesquecíveis. Recomendo.

Relato de um certo Oriente

45602gMemórias com sabor, aroma e intensidade. Essa seria a minha curta descrição de Relato de um Certo Oriente, de Milton Hatoum. Gosto de tentar resumir coisas em uma frase, uma palavra, uma imagem. Mas resumir ou resenhar  o primeiro deste autor nascido em Manaus com ascendentes Libaneses, é tarefa nada fácil.Para mim foi uma experiência super (ou extra) sensorial

O relato é o  de uma mulher que volta a sua cidade natal após 20 anos de ausência e ao comunicar a morte da seua mãe adotiva, reconstrói numa carta para o seu irmão que mora em Barcelona, as memórias e histórias da família. Não só as suas, mas também as de outras pessoas.

Ao descrever os fatos que de desenrolam após a sua chegada, ela os embaralha com relatos também de outros personagens. Assim, as relações e tensões familiares tecem uma teia que lhe prendem e lhe fazem viajar entre os dois lados do rio em Manaus, entre o Oriente e o Ocidente e entre o ambiente exterior e o mais íntimo dos personagens.

A narração se divide entre várias vozes e para evocar o passado, o autor usa e abusa de aromas, sabores,  gestos e detalhes. Mas não espere algo em ordem sempre cronólogica.

A memória nos prega peças e muitas vezes precisamos da ajuda de outros para relembrar o ocorrido. Esta é a mágica desse o romance.Um tapete que vai sendo tecido através de muitos olhares e outros relatos. Assim vão aparecendo o conflitos entre parentes, línguas, culturas e classes sociais.

Não se preocupe em entender ou gravar todos os nomes e histórias,saboreie os parágrafos e deixe-se embrenhar nas muitas histórias. Desta forma, você conhecerá a história de Emelie, a matriarca, centro do enredo e eixo ao redor do qual toda a família orbita. Também o alemão Dorner, o fotógrafo, amigo da família, que retrata as belezas e agonias da terra. Hindié Conceição, amiga de Emelie e companheira de velhice, sempre presente. Os seus filhos, marido e em particular o filho mais velho, único a aprender o árabe e que ironicamente, foi o que mais se afastou. Além de outros fatos marcantes e tragédias que marcaram a família e a infância da narradora.

Para completar, assista abaixo uma entrevista com o autor :