Nossas Letras

Nesta seção você encontrará outras letras produzidas pelas autoras. Desta vez os escritos vão além de resenhas de livro ou notícias e/ou curiosidades relacionadas ao mundo da literatura.  Poesias, contos, crônicas, entrevistas e outras produções estão em pauta.

Chaves para a porta errada


Ela saiu de casa batendo a porta atrás de si, desmaquilhada,  cabelos de fogo dessarumados como nunca os vira antes.  A não ser aquele pequeno detalhe dos seus lábios estarem vermelhos como uma gota de sangue numa tela branca de cristal.
A sua boca não mostrava os seus dentes amarelos de tanto fumar, mas sim  um sorriso destorcido de loucura, de dor e desejo, desejo do quê?   Não me perguntem, porque não sei!
O casaco preto fechado com botões de ferro, na borda, logo abaixo dos seus joelhos que a muito não  eram vistos. O tecido branco de renda, que contrastava com as meias grossas  para protege-la do frio do Inverno, ou quem sabe o calor do Verão a muito esperado.
No fim daquelas pernas que eu um dia conheci, os sapatos de 10 cm que a fazia 1.70, invez dos seus meros 1.60. Como ela conseguia andar com os sapatos desabotoados,  tão graciosamente, é uma das tantas perguntas que sempre ficaram sem resposta.

Ela continuou a andar, com passo apressado, cabelo ao vento, no chão atrás dela só ficavam as lágrimas que ela derramava e foi nesse momento que eu parei de a espreitar pela minha janela.

Deixei de ser o vizinho que ela comprimentava com um sorriso e um abano de cabeça. Calcei os meus sapatos, vesti o meu casaco, peguei as chaves, bati a porta depois de sair olhei para a janela onde ele bebia a cerveja de sempre, aquele covarde, nem correu atrás dela, nem piscou os olhos, gritou como a muito já era hábito e deixou-a ir, com a certeza que ela voltaria. Hoje vai ser diferente, porque hoje eu vou encontrá-la.

Neste frio ela não esta a vista, olho até ao fim da rua, mas nem sinal de vida, o coração bate com mais frequencia, pum pum pum… ando com pressa sem saber onde devo ir, mas algo me diz que tenho que a encontrar agora, nem um segundo mais tarde. Ela esta sentada no chão a olhar para a água com a certeza que para aquela casa que acabou de deixar para trás e para aquele homem não voltará.

Ouviu um som distantes de passos, e deixou-se ficar ali, quando uma mão agarra-a, levanta-a com uma força e cuidado desnecessario, deixa as suas pernas a tremerem sem direção, e encara quem a ataca, com um certo despudor.  Sem me aguentar agarrei o seu rosto e beijei os seus lábios de sangue, e ela não protestou, aliás incitou, mas eu sei que ela só o faz por vinganca. Limpei todas as lágrimas do seu rosto com os meus lábios.

Não me perguntes o que será de mim, dela, nem do quem sabe nós.

Foi somente um beijo de ódio,  de paixão, vingança, desejo e solidão.

Marco

Lara Pereira da Silva – 23 de Abril 2010


A Chegada

Norma 03/feb. 2010

Ela disse-me  “acalenta-te nos meus braços porque já não há nada a fazer”

Primeiro foi o vinho, o néctar dos Deuses

Sim! De certeza é ele – desisti de saboreá-lo, coisa que fazia com tanto prazer.

Quem sabe não são os biscoitos de chocolate?

Não. Não é isso…. é o leite.  E assim foi…Alojando uma lista de restrições sem fim e dando lugar a um vazio imenso.

Vou enfrentar cara-a-cara

Essa inoportuna e inevitável idade

Ela olhou dentro dos olhos e disse-me

” Acalenta-te nos meus braços porque já não há nada a fazer”.

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Ilusão de Lógica

Clarissa Mattos – dez/2008

Você me olha de lado
E eu bem do outro lado
do seu olho que é vidrado
nesse lado do meu olhar

Enquadrado nem nota
Que saiu de órbita
Ilusão de lógica
Fora de ótica

Você me olha atravessado
E eu bem que desconfio
que um dia atravesso
pro outro lado desse vasto
negro lago que é seu olhar

Desfocado nem se toca
Da menina bailarina
Que flutua cristalina
No azul do seu  olhar

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Uma, duas, somos só Uma!


Acordei, sentia uma dor em cada músculo do corpo, mas isso era o que menos importava, não sabia onde me encontrava, escuro, rochas, seixos, pedras, envolviam-me neste mar de calor, no topo… um túnel estreito, a luz não era suficiente para iluminar tudo a minha volta, reconheci. Sei onde estou, mais uma vez aqui, meu velho companheiro, meu melhor amigo, meu velho inimigo, agora a juventude te inunda, voltaste por mim. Caí, mais uma vez neste buraco sem fim, neste que começa no meu ser e acaba na minha alma, como saí da última vez? Ah, sim, meu anjo negro me vieste salvar, o que fazer agora?
Já cá não estás!
Ouvi um ruido a poucos passos de distância, alguém acordava, era ela… maldita!
Eu era a boa, ela a má, ou será que eu era a má e ela a boa? Ela simplesmente seria tudo o que eu não sou! Tinhamos a mesma cara, o mesmo corpo, uma, duas, a lutarem por um só querer.
Ela disse-me: “Continuamos”
– “Ficamos”
Ela:” Desprezamos”
– “Queremos”
Ela: “Odiamos”
– ” Amamos”Desprezei amando.
Fiquei odiando.
Continuei querendo.

Lara Pereira da Silva

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rosa

Rosa Verdade

Clarissa Mattos – Set/09


Ardia o céu da tarde

Fúria rosa em tons cadentes

À tua espera impacientes

A cidade e eu



Se o azul lilás queimava

Cá embaixo uma chuva ruidosa

Gritando também te esperava

A escandalosa cidade

E eu que nem sabia

Que nada escondia

Só esperava ansiosa

Sob um céu cor-de-rosa


E tu que tudo guardavas

Apressado voavas

Sem nem dares conta

Da dolorosa verdade


Sabes lá o que é voar com as asas em chamas?

Sabes lá o que aguar sem provar de quem ama?

Sabes lá o que é duvidar e nunca tirar a prova?

Sabes lá o que é cuidar e nunca ver abrir a rosa?

  1. thegirlwithbooks

    Clarissa,

    Sei que já comentamos, mas tenho tantas outras palavras para descrever este texto, mas a unica que escolherei e que continues a escrever porque há algo de especial e unico no que li, toca o coração, e claro cada um enterpreta com a sua propria visão, só tu saberas a verdadeira razão de tais palavras.

    Beijos

    Lara

  2. Bailandesa

    Norma e Lara,
    Obrigada pelo carinho. É tão bom quando o que vc escre toca e emociona outras pessoas. Aos poucos vou colocando os meus outros escritinhos por aqui. Lara, agora é a sua vez.. 🙂

    beijos
    Cla

  3. Bailandesa

    Adorei Lara. Acho que todas nós de vez em quando nos sentimos assim, divididas, mas completas. E nós continuamos querendo mais e mais textos seus.

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